Tiago Pitthan, advogado de 47 anos diagnosticado com câncer terminal, transformou a despedida em celebração ao organizar um velório em vida. O evento, marcado para 30 de maio em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, reúne amigos e familiares em torno de uma reflexão profunda: a importância de viver intensamente enquanto se tem tempo. Conforme publicou a Folha Destra, a iniciativa reflete uma postura filosófica rara em nossa sociedade, onde a morte é frequentemente evitada nas conversas cotidianas.
Celebrando a vida antes da despedida
Diante do diagnóstico de câncer em estágio avançado, Tiago Pitthan decidiu não sucumbir à tristeza convencional. Ele organizou um “velório em vida” com tom leve e otimista, divulgando nas redes sociais: “Vai ser uma festa linda, alegre. Sem drama, sem tristeza, um momento de celebração. Que vida eu tive, tenho, minhas amigas e amigos. Não tenho do que reclamar, sou um (bom) sujeito de sorte. Venham celebrar comigo”. A iniciativa questiona o modelo tradicional de despedida, onde o homenageado permanece ausente do próprio velório.
A ideia surgiu após a morte do pai em 2024, vítima de cardiopatia. Ao recordar aquele velório, Pitthan percebeu uma lacuna fundamental: a ausência do próprio pai nas histórias e risadas compartilhadas. “O velório do meu pai foi lindo. Meus amigos e os amigos dele, ficaram contando histórias, rindo. Ele era muito querido. E eu pensei o tempo todo: ‘Nossa, só faltou ele, só faltou o velhão aqui pra conversar com a gente, pra dar risada com a gente’. E eu não quero que isso aconteça no meu”, refletiu.
Do abstrato ao urgente: a transformação pela doença
O câncer foi identificado em março de 2024. Durante mais de um ano, Pitthan descreveu a doença como um “inimigo abstrato”, mantendo rotina ativa com alimentação regular e prática de exercícios. Contudo, em novembro de 2025, quando o câncer se espalhou para os pulmões, a realidade se impôs de forma devastadora. “Em novembro, tive um problema pulmonar por causa do câncer. Não conseguia me alimentar, não conseguia respirar, parei de fazer esporte. Perdi 24 quilos. Hoje estou com 66. Foi muito rápido. Eu virei outra pessoa. Isso me deu uma sensação de urgência. O câncer deixou de ser abstrato, ficou real.”, relatou.
Essa transformação física e emocional catalisou uma mudança radical em sua relação com o tempo. Pitthan passou a vencer a preguiça, respondendo “vamos” antes mesmo de terminar de pensar. “Eu parei de adiar as coisas. Passei a vencer a preguiça. Se alguém me chama para um café, antes eu pensava duas vezes. Hoje, no meio da frase, eu já respondo: ‘vamos’. Eu quero estar com as pessoas.”, explicou. Seus planos incluem saltar de paraquedas em maio e viajar para Portugal para visitar familiares.
Mesmo com o quadro avançado, Pitthan mantém uma postura otimista, afirmando que sempre levou a vida com bom humor. “Eu sempre levei a vida assim, bem-humorado. Com a morte não seria diferente. Ela é só um detalhe perto do que já vivi e do que ainda tenho para viver. Não penso em tempo, penso em intensidade, em estar com quem eu gosto. Quando ela acontecer, aconteceu.”, declarou com descontração.
Humor como ferramenta de enfrentamento
O tom descontraído marcou desde o convite para o evento: “Venham comemorar comigo enquanto estou por aqui. De gelado, no dia, só o chope.” No início, pessoas próximas não sabiam como reagir à proposta irreverente. Com o tempo, porém, passaram a acompanhar o humor do advogado. “No começo, ninguém brincava comigo. Eu precisei mostrar que não queria respeito ao câncer. Quero que esculachem ele. Podem fazer piada à vontade.”, revelou.
Um momento simbólico ocorreu após uma cirurgia no estômago, quando Pitthan publicou com bem-humor: “Gente, aproveitem minha amizade enquanto eu ainda tenho estômago para aturar vocês.” Esse tipo de abordagem quebrou o clima de tensão. Meses depois, um amigo presenteou-o com uma viagem para o Carnaval no Rio de Janeiro, brincando: “Vê se não morre até lá, que não tem reembolso.”
O “velório em vida” terá apresentações musicais e surpresas organizadas pelo próprio advogado. Pitthan pretende repetir encontros semelhantes a cada seis meses, enquanto estiver vivo. Após sua morte, deseja que a despedida mantenha o mesmo clima leve, com música, risadas e até referências cinematográficas.
A história de Tiago Pitthan nos confronta com uma verdade incômoda: nossa sociedade perdeu a capacidade de lidar com a finitude de forma natural e até alegre. Enquanto instituições e narrativas mainstream insistem em medicalizar a morte e transformá-la em tabu, indivíduos como Pitthan demonstram que há liberdade em abraçar a realidade com humor e dignidade. Sua escolha de celebrar a vida antes da partida é um ato de resistência contra a cultura do medo e da negação que permeia nossa época. A vida, de fato, presta.